Você não (deveria) odiar política


Há alguns anos, a política no Brasil era assunto para intelectuais ou para bêbados na mesa de um bar. Salvo em casos de eleições, ninguém falava sobre política no dia a dia, o mais comum era ouvir pessoas falando que odiavam política. Você não via pessoas politicamente engajadas na internet, ou falando sobre isso naturalmente em padarias, restaurantes, hospitais ou escolas. Aliás, falar sobre política na escola! Esse talvez seja um dos fenômenos mais lindos dos últimos anos. Recentemente estava almoçando e vi dois alunos de uma escola pública tomando sorvete e conversando (muito animados) sobre a situação política do Brasil. Eu quase caí para trás de alegria.

Com o avanço das crises no país (especialmente no final do primeiro governo Dilma), as pessoas começaram a falar sobre isso e, eventualmente, assumiram seus lados ideológicos, dando início, então, a uma verdadeira onda de textões em Facebook, amizades desfeitas e muito bate-boca. Mas, será que nós sabemos pelo o que estamos brigando? Estamos, efetivamente, participando da política?

A participação política exige diversos graus de engajamento e é importante lembrar que não só de eleições se faz a política. A política está acontecendo a todo o momento, portanto nosso engajamento precisa ser constante. Hoje estamos pagando um preço alto pela nossa falta de participação. Os crescentes atos de corrupção envolvendo políticos e grande empresário não é culpa, exclusivamente, dos que roubam e desviam aquilo que é público, mas também é nossa, que somos muitas vezes omissos e temos preguiça de procurar saber, participar, entender…

Não basta somente ficar discutindo nas redes sociais e chamando os amigos e familiares de “coxinhas” ou “petralhas”. Tem que haver engajamento real. Segundo pesquisa realizada pelo DataFolha, em 2010, cerca de 30% dos eleitores não se lembravam em quem haviam votado para o cargo de deputado federal apenas vinte dias após as eleições. Quanto aos deputados estaduais e vereadores, mais da metade dos eleitores não sabia dizem em quem haviam votado.

Ora, se não sabemos sequer em quem estamos votando, como vamos cobrar compromisso de nossos políticos? Há um equívoco comum em pensar que a corrupção começa de cima para baixo. Ou seja, da política, para a sociedade, mas o que acontece é rigorosamente o oposto. Culturalmente, temos tratado a ética como uma massa modelável, que se adéqua a determinadas situações, conforme a conveniência. Os políticos se aproveitam na nossa maneabilidade e de nossa amnésia seletiva para transformar o público em privado.

A participação política não é uma questão partidária. Nós não precisamos ficar brigando para tentar provar qual partido, ou qual político é mais ou menos corrupto. É uma questão de entendermos como funciona o sistema, de sabermos quem são os nossos representantes e sabermos como anda a ficha do camarada.

Talvez pareça trabalhoso e podemos sentir que não há tempo na correria do dia a dia para isso, mas há uma certa urgência em nos interessarmos mais por política e pararmos de repetir o velho senso comum de sempre. Reflita comigo: Você se lembra em quem votou nas últimas eleições? Você sabe que tipo de projeto o seu candidato tem proposto? Você tem concordado com as posições dele (a)?

FALCAO

 

Beatriz Falcão é cientista política

 

Fontes:
Câmara notícias: Um terço dos eleitores não se lembra em quem votou. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/ULTIMAS-NOTICIAS/475625-UM-TERCO-DOS-ELEITORES-NAO-SE-LEMBRA-EM-QUEM-VOTOU.html. Acesso em 04 de junho de 2016
NOGUEIRA FILHO, Octaciano da Costa. Vocabulário da Política. Brasília: Senado Federal, Unilegis, 2010. 311 p.
FAORO, Raymundo. Existe um pensamento político brasileiro? São Paulo: Scielo Brasil, 1987.

 

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