Brasil deve ter presidente “libanês” antes do Líbano


O Brasil vai ter um presidente libanês antes do Líbano? A pergunta provocativa, feita na última quinta-feira (28) pela Al Arabiya, portal de notícias do mundo árabe, mostra a atenção que o país do Oriente Médio tem dedicado ao processo de impeachment no Brasil. As autoridades libanesas buscam um acordo para solucionar um impasse político provocado por divergências religiosas: o país, que é parlamentarista, está há dois anos sem presidente por falta de consenso. Filho de libaneses, Michel Temer assumirá a Presidência da República em maio caso o Senado abra o processo por crime de responsabilidade contra a presidente Dilma Rousseff e a afaste do mandato por até 180 dias. A eventual ascensão de um “compatriota” ao cargo mais alto do maior país da América do Sul virou destaque na mídia libanesa.

Em perfil publicado após a aprovação do processo de impeachment na Câmara, o jornal The Daily Star, do Líbano, mostra a relação de Temer com o Líbano, o relato de parentes libaneses e apresenta sua trajetória política. A publicação lembra que os pais e os três irmãos mais velhos do peemedebista deixaram Btaaboura, um povoado a dez quilômetros da costa Norte do Líbano, ainda no início da década de 1920, com destino ao Brasil, fugindo da guerra e da fome.

O texto relata as duas únicas visitas feitas por Temer ao país: em 1997 e em 2011. Um primo libanês (de Temer) ouvido pela mídia local conta que o brasileiro “beijou o chão e as pedras gigantes” da casa da família no pequeno povoado. “Ele nunca se esqueceu de onde veio. Durante a sua primeira visita, ele levou um dia inteiro, a fim de ver a aldeia e conhecer seus parentes”, disse Youssef Barbar. “Quando ele entrou pela primeira vez na aldeia, as lágrimas brotaram de seus olhos”, completou a prima Youmna Barbar.

Reprodução do Daily Star com foto da casa da família Temer no Líbano e a promessa feita pelo vice, ainda em 2011, de retornar ao país como presidente do Brasil

De acordo com a publicação, muitos dos moradores deixaram o local em busca de melhores oportunidades no exterior, como os pais de Michel Temer. “A maioria dos libaneses nem sequer sabe que existe a nossa aldeia, mas agora, depois que um dos seus filhos está prestes a se tornar presidente, somos conhecidos até no Brasil”, comemora Nizar Temer, outro parente do vice-presidente.

Durante a primeira visita à terra dos pais, Temer ajudou financeiramente a comunidade local a construir uma igreja. “O processo de construção ainda está em curso, mas o jardim da igreja será nomeado em sua honra após a conclusão. Ele também teria instruído o embaixador do Brasil para o Líbano para agilizar os pedidos de visto para os residentes de Btaaboura.” Em frente à casa da família, uma estátua foi erguida em homenagem ao patriarca dos Temer. Nela está escrito: “Miguel Temer, pai do vice-presidente do Brasil”. O curioso é que, pela origem de sua família, Temer não poderia ser presidente do Líbano mesmo se tivesse nascido lá (leia mais abaixo).

Premonição?

Na segunda visita, feita em 2011 na condição de vice-presidente, Temer ouviu a seguinte brincadeira do então presidente do país, Michel Suleiman: “Você é mais presidente do Líbano do que eu, porque vocês têm oito milhões de habitantes, nós temos cinco milhões”. Suleiman fazia referência à numerosa comunidade libanesa no Brasil e a população nacional. Segundo um dos primos ouvidos pela mídia local, Temer prometeu retornar ao vilarejo ao se tornar presidente – algo que parecia improvável naquele ano, o primeiro do mandato de Dilma. “Nós esperávamos que ele fosse capaz de pressionar os políticos para pavimentar nossas estradas”, cobrou um parente do peemedebista. “Embora esta área seja linda, é muito carente e o Estado não se importa muito com isso”, acrescentou o primo.

Em entrevista ao Al Arabiya, o primeiro-secretário da Embaixada do Brasil no Líbano, Adam Muniz, disse que é grande a expectativa dos libaneses com a eventual posse de Temer. “Tenho certeza que existem muitas expectativas de pessoas no Líbano e também da comunidade brasileira-libanesa no Brasil”, disse Muniz. Segundo o diplomata, a visita feita pelo vice-presidente a Beirute, em 2011, reforçou os laços entre os dois países. O peemedebista liderou a maior missão oficial enviada pelo Brasil ao Líbano.

“O mais poderoso”

O interesse da comunidade árabe por Temer não é novo. Em 2014, o Executive Magazine, publicação voltada para países do Oriente Médio, apresentou o vice-presidente brasileiro como “a pessoa mais poderosa do Líbano viva”. “Meu pai sempre dizia que o Brasil é o lugar para ‘fazer a América’, e por ‘fazer a América’, ele queria dizer o lugar para crescer, prosperar”, disse o peemedebista.

Segundo a publicação, Temer contou que as raízes libanesas foram importantes para ele que alcançasse seus objetivos. Ele acha que a “fraternidade” e os laços familiares estreitos com a comunidade libanesa ajudam a criar indivíduos fortes.

Desde maio de 2014 o Líbano não tem presidente. Único país do Oriente Médio onde o cristianismo impera, o país reserva a Presidência e o comando das Forças Armadas aos cristãos maronitas. Para contemplar as diferenças internas, o primeiro-ministro é sempre um muçulmano sunita. Já o presidente do Parlamento tem de ser muçulmano xiita. Cabe aos parlamentares – metade deles cristãos e a outra metade muçulmana – eleger o presidente do país. Mas, por falta de acordo, o cargo está vago há 24 meses. De família cristã grego-ortodoxa, Temer não poderia ser presidente do Líbano mesmo se tivesse nascido no país. Seria, no máximo, vice-premiê – cargo reservado à sua linhagem.

Mudança de lado

Recorrendo ao perfil político feito pelo jornal norte-americano Wall Street Journal, o YaLibnan destaca que Temer, apesar de estar na política há décadas, é uma “figura discreta” que mudou de aliados nos últimos anos. “Como congressista na década de 1990, ele apoiou o governo conservador de Fernando Henrique Cardoso. Mas, em 2010, ele ingressou na campanha da esquerdista Dilma”, diz a publicação.

O texto aponta, ainda, o distanciamento entre os dois desde a reeleição. Lembra que Dilma tem se referido a Temer como autor de um “golpe”, um “conspirador”, e alertado que o peemedebista vai reverter programas sociais que tiraram 40 milhões de brasileiros da pobreza – o que é negado pelo vice. A publicação destaca que Temer se envolveu em uma situação embaraçosa no início de abril, com a divulgação de uma gravação em que ele ensaiava um discurso para assumir a Presidência da República antes mesmo da votação do processo de impeachment na Câmara.

Por Edson Sardinha

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